sábado, 11 de fevereiro de 2012

Gestação


"Durante nove meses meu corpo foi sua morada
E nessa relação intensa e inexplicável
Meu alimento te alimentou
Minha tristeza te entristeceu
Minha alegria te alegrou
Conheci seus hábitos
Conheceu os meus
Senti medo e insegurança
Por mim... Serei uma boa mãe?
E por ti... Um mundo tão cruel lhe espera
Mas quando te sentia mexer
Era inundada por uma alegria imensurável
Que me enchia de segurança e me fazia ser onipotente
Saberia te proteger
Dava asas a imaginação:
Qual seria o seu sexo, a cor dos seus olhos, da sua pele, a textura dos seus cabelos?
Como seria o seu nariz, as orelhas, o queixo, os lábios, sua estatura, seu caráter?
Mesmo tendo, de bom grado, lhe oferecido minha morada
Não via a hora que a deixasse para nos conhecermos de verdade
E apesar de ter feito mil e uma combinações
E de ter sonhado tanto com você
Quando vi o seu rostinho, não reparei em nada
Vi somente que era você, minha filha!
Desse jeitinho assim!
Depois que você chegou
Passei a me sentir o ser mais antagônico do mundo
Pois amor, raiva e dor se revezavam dentro de mim
A dor de um corpo costurado que busca regeneração
De uma mulher que se sente feia, deformada
A dor dos seios rijos de leite
Que quando encontram sua boquinha faminta que ainda não sabe sugar
Doem mais ainda, racham e ficam febris
Com fome você não dorme e não me deixa dormir
Então sinto raiva! Que sina infeliz!
Mas quando vejo a sua imagem angelical, ressonando
Dormindo despreocupadamente e bem alimentada
Um bálsamo alivia toda minha dor
A raiva sublima-se em amor
Um amor imenso, confortador, regenerador
Então tive a certeza de que nunca mais estaria só
Pois o amor por ti passaria a me acompanhar
Até o fim dos meus dias!
Digo o amor
Por que sei que você vai
Vai crescer, se apaixonar e seguir seu caminho...
E a única certeza que tenho é que
Estando perto ou distante, continuarei te amando
E mesmo mulher feita
Continuará sendo minha filhinha perfeita.”

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